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Estatísticas e índices: artefatos em disputa

Дата публикации: 14-07-2026 23:40:01

Em novo livro, pesquisadores contestam a objetividade enquanto um atributo inerente aos números. A confiança é um trabalho coletivo de validação. Para reverter sua fragmentação entre plataformas e corporações, agências estatais devem incorporar a participação de quem é objeto da contagem
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Livro: Números em Ação
Desvendando atores, práticas e infraestruturas de quantificação
Autores: Alexandre Camargo, Eugênia Motta e Moisés Kopper
410 páginas
Editora Hucitec
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Em uma época em que gráficos, indicadores e estatísticas circulam em velocidade recorde, por que tantas pessoas desconfiam dos números? Essa é uma das questões para as quais os organizadores do livro “Números em ação: desvendando atores, práticas e infraestruturas de quantificação” (Hucitec, 2026) tentam discutir.

Alexandre Camargo, Eugênia Motta e Moisés Kopper dividiram o livro em quatro partes que discutem a formação de estatísticas governamentais; a produção de dados por organizações que reivindicam espaço dentro das estatísticas oficiais; a relação entre os dados sobre saúde e as práticas de cuidado, a performatividade dos números sobre o comportamento econômico e a construção de mercados. Em cada um dos capítulos, o leitor conhece o contexto de elaboração das informações, seus limites e sua capacidade de mudança de perspectiva sobre determinado assunto.

Em vez de tratar a objetividade como um atributo automático das estatísticas, eles defendem que a confiança é uma construção coletiva, resultado de processos sociais, políticos e institucionais. Ao discutir desde iniciativas comunitárias de produção de dados em favelas até o papel de órgãos públicos e do jornalismo, a conversa convida o leitor a repensar uma pergunta fundamental: o que faz um número ser convincente? E por que compreender essa resposta é essencial para fortalecer o debate público e a confiança no papel das instituições?

Nesta entrevista, o pesquisador do Observatório História e Saúde da Fiocruz, Alexandre Camargo, detalha o debate que o livro propõe. Confira.

Vocês defendem que a confiança não é um atributo natural da verdade, mas um “trabalho coletivo de validação”. Em tempos de excesso de informação, como podemos criar novas “ecologias de confiança” que conectem os órgãos de estatística aos territórios e aos cidadãos?

Alexandre Camargo – Essa questão é absolutamente central em nossa reflexão. Vale nos determos um pouco mais nela. No livro, defendemos que a confiança não é uma propriedade que emana automaticamente da precisão técnica dos números, mas um “trabalho coletivo de validação”, isto é, um processo moral, situado e permanentemente negociado entre instituições e coletividades organizadas. Essa inversão é decisiva: em vez de partir da premissa de que a objetividade produz confiança, entendemos que é o trabalho social de construção da confiança que sustenta as pretensões de objetividade. Os números só “funcionam” quando existem comunidades dispostas a interpretá-los, defendê-los e reconhecê-los como legítimos. E essas comunidades são sempre históricas, desiguais e situadas.

No cenário atual de excesso de informação, ou, como alguns autores chamam, de “dilúvio de dados”, essa fragilidade se agrava. A proliferação de indicadores, gráficos e visualizações não elimina a incerteza pública; ao contrário, pode ampliá-la quando as infraestruturas de verificação são frágeis e os circuitos de circulação, sobretudo os digitais, recompensam a controvérsia mais do que a exatidão. Não se trata apenas de fabricar o falso, mas de instrumentalizar o verdadeiro por meio de recortes seletivos, escalas enganosas e enquadramentos direcionados. Por isso, entendemos que é importante deslocar a pergunta “o dado é correto?” para “como ele se torna crível junto a públicos específicos?”.

É justamente aí que a noção de ecologias da confiança ganha força. Se a autoridade estatística deixou de ser monopólio do Estado e se fragmentou entre plataformas, corporações, laboratórios cívicos e coletivos locais, reconstruir a confiança pública exige multiplicar os pontos de mediação entre números e sociedade.

Analisamos alguns exemplos em diferentes capítulos: Data labs em favelas, que mobilizam moradores para contar mortes e violências em territórios historicamente subnotificados; iniciativas como o Fogo Cruzado e o Grupo de Estudos em Novos Ilegalismos (Geni), que reenquadram debates públicos a partir de contagens comunitárias; projetos de automapeamento e censos populares em territórios como Maré e Providência, que produzem pertencimento e novas gramáticas de reivindicação; e o jornalismo de dados que combinam o sensorial e o cognitivo em uma pedagogia pública capaz de explicar métodos, situar incertezas e convidar o leitor a se reconhecer no número.

Conectar os órgãos estatais que produzem dados estatísticos – como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Fiocruz-, a esses territórios não significa absorver as contagens insurgentes em lógicas centradas no Estado, nem tampouco abandoná-las à própria sorte. Ao contrário, convém tornar essa fronteira mais porosa, com agências públicas atuando como mediadoras técnicas e logísticas de iniciativas locais, sem capturá-las. É assim que novas ecologias da confiança podem emergir.

Como podemos criticar a forma como um número é formado (suas convenções) sem desvalorizar a “prova numérica” que é essencial para o funcionamento das políticas públicas?

Para responder a essa pergunta, vale lembrar a distinção conceitual proposta por Alain Desrosières, um dos fundadores do campo dos estudos sociais da quantificação: a estatística não é redutível a um único registro, mas oscila permanentemente entre dois polos — a prova numérica, que serve à descrição da realidade e funciona como referência indisputável, e o instrumento de governo, que mobiliza as convenções de equivalência em que as estatísticas se baseiam, e que estão em constante disputa política. Criticar as convenções que formam um número — as categorias, classificações e negociações que o tornam possível — não é o mesmo que negar sua eficácia como prova. Desrosières dizia que para que categorias como desemprego, pobreza e crescimento econômico funcionem, elas precisam ser, ao mesmo tempo, “inquestionáveis, para a vida seguir seu curso” e discutíveis, “para que a vida possa mudar de rumo”. Não se trata de escolher entre um registro realista e outro registro relativista, mas de sustentá-los juntos. Quando se trata da quantificação da sociedade, ambos acontecem ao mesmo tempo.

Essa crítica não visa abolir a prova numérica, mas torná-la mais responsável: explicitar os acordos, as categorias e os investimentos morais e institucionais nela embutidos, para que possam ser contestados, revisados e reconstruídos coletivamente — inclusive por atores fora do Estado, como mostram os capítulos sobre ativismo de dados. A funcionalidade da estatística para as políticas públicas não depende da ilusão de neutralidade absoluta, mas da confiança socialmente sustentada em torno dela. Preservar essa confiança exige, paradoxalmente, admitir seu caráter fabricado, no lugar de escondê-lo.

O livro propõe que os números não são apenas fontes neutras de informação, mas “processos sociais expressivos e criativos” que ajudam a produzir o mundo. Como essa perspectiva muda a forma como o cidadão comum deve encarar um dado oficial ou um índice econômico?

Ao nos interessarmos pelos números como “processos sociais expressivos e criativos”, e não meras fontes neutras de informação, deixamos de perguntar apenas o que um número representa e passamos a prestar atenção no que os números fazem, como viajam sociedade afora, transformando-a. Essa mudança tem consequências práticas para o cidadão comum. Um índice de inflação, por exemplo, não é um espelho passivo dos preços: é resultado de escolhas metodológicas sobre o que entra na cesta de consumo, quais regiões são pesquisadas, como as ponderações são calculadas, escolhas que, como mostra o capítulo sobre a “guerra dos indicadores”, podem se tornar armas de disputa entre diferentes visões de economia e sociedade.

Para o cidadão, essa perspectiva convida a uma postura mais ativa e crítica: perguntar quem produziu o dado, com que metodologia, a serviço de quais interesses e narrativas, e que efeitos ele produz ao circular publicamente, inclusive reconhecendo que grupos historicamente marginalizados também podem se apropriar da quantificação como instrumento de reivindicação e visibilidade. Encarar um índice econômico não como verdade acabada, mas como um artefato em disputa, é o primeiro passo para uma cidadania informacional mais consciente.

Em um caminho oposto às críticas dos dados estatais, o livro trata da importância da produção de dados pelos próprios territórios e por ativistas em prol da conquista de direitos. Podemos dizer que a produção de dados confiáveis passa por lidar com as tensões entre demandas sociais/populares e formulações estatais?

A confiabilidade de um dado decorre do modo como diferentes atores negociam categorias, metodologias e critérios de reconhecimento ao longo de sua produção. Quando comunidades, ativistas ou movimentos sociais produzem seus próprios números, seja para nomear vítimas de violência policial, contabilizar conflitos agrários ou reivindicar uma identidade censitária (tópicos tratados na coletânea), eles não estão simplesmente contestando o Estado a partir de fora: estão disputando o direito de definir o que conta como fato relevante e como esse fato deve ser medido.

A confiabilidade emerge, então, da fricção entre esses dois regimes de produção. De um lado, dados de base popular ganham robustez quando dialogam com metodologias formais, cruzam fontes, explicitam seus critérios e entram em circuitos institucionais de validação — sem, no entanto, abrir mão da proximidade com o território que lhes confere legitimidade e sensibilidade ao que o Estado historicamente ignora. De outro, agências estatais tendem a se tornar mais precisas e representativas quando incorporam a participação de quem é objeto da contagem, revendo categorias insuficientes ou excludentes a partir da experiência vivida.

Encarar essa tensão como produtiva, e não como um problema a ser eliminado, viabiliza a concepção de que dados confiáveis são fruto de um trabalho coletivo e contínuo de tradução entre demandas populares e rotinas estatais, um equilíbrio sempre provisório entre rigor metodológico, legitimidade e participação social.

No caso da Zika e da Hanseníase, o livro mostra que os números e testes muitas vezes servem para “visualizar” a epidemia, mais do que garantir o cuidado real. Em que situações o excesso de métricas pode, paradoxalmente, aumentar a desconfiança da população na ciência?

O excesso de métricas pode corroer a confiança pública quando a produção do número se descola da experiência concreta de quem sofre a doença — quando contar, classificar e testar passam a servir unicamente à administração da emergência sanitária, e não ao cuidado. No caso da hanseníase, a pressão por indicadores comparáveis internacionalmente (rankings da OMS, metas de “eliminação”) levou países a ajustar critérios de notificação, retirando pacientes com sintomas persistentes dos registros, para que os números decrescessem, mesmo quando a doença continuava presente nos corpos. Esse gesto de “maquiar” a estatística para cumprir uma meta de benchmarking é justamente o tipo de situação em que o excesso de métricas produz desconfiança: o dado deixa de descrever a realidade e passa a governá-la.

No caso do Zika, o mesmo padrão aparece de outra forma: a testagem diagnóstica e os protocolos de notificação foram mobilizados para “visibilizar” a epidemia e justificar ações de vigilância, mas, diante da impossibilidade de interromper a gestação ou reverter a microcefalia, cabia perguntar “para que se testa?” — os testes configuravam a emergência sanitária sem necessariamente garantir cuidado às famílias atingidas. Quando a métrica cumpre uma função burocrática de classificação (definir “casos”, justificar investimentos, regular a resposta institucional) sem se traduzir em suporte terapêutico tangível, a população passa a perceber a quantificação como prática puramente administrativa, e não como instrumento de proteção e garantia.

Os capítulos que analisam epidemia sugerem que a desconfiança nos dados estatísticos cresce, sobretudo, quando a métrica responde às exigências de organismos internacionais e rankings, descolando-se da experiência e da oferta efetiva de cuidado. Ou, ainda, quando divergências entre especialistas sobre o mesmo conjunto de dados se tornam públicas, revelando que “os números” não falam por si, um senso comum que é urgente debater e superar.

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